quinta-feira, 31 de maio de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
Luz acesa
Luz acesa
Tenho observado nos
grupos e nos atendimentos individuais a dificuldade que sentimos de aceitar os
padrões que percebemos em nós mesmos, como um excesso de rigidez aqui, uma falta de tônus
ali. Nos estranhamos quando percebemos nosso corpo como ele é, principalmente
porque, na maioria das vezes, o que percebemos é bastante diferente do corpo
que sonhamos ter.
Músculos definidos,
nenhum quilo sobrando, a coluna ereta e, de preferência, muito auto controle
para não deixar escapar as emoções mais primitivas, como raiva, medo e
tristeza. Nosso corpo acaba se tornando o campo onde tentamos exercer nossa
perfeição, assim como o lugar de contenções e transbordamentos. Dormimos pouco,
às vezes comemos muito, não escutamos os sinais de que estamos cansados e vamos
tocando em frente e o corpo arca com tudo isso.
Só nos esquecemos
que muitas vezes nossa organização corporal está a serviço de nos ajudar a nos
defender das experiências difíceis da vida; ela nos estrutura e funciona quando
precisamos. Minha rigidez me ajuda a não colapsar e desmanchar em choro diante
de um perigo, a porosidade de outras pessoas as ajudam a escorrer e contornar a
situação, um corpo parrudo ajuda a ir tirando os obstáculos da frente e a ser
eficiente. A lista de exemplos não acaba e com certeza cada um poderá nomear
pelo menos um traço corporal que o ajuda a sair das roubadas dessa vida.
O grande problema é
quando não precisamos nos defender e deixamos esses padrões de defesa sempre
acionados, assim como deixamos as luzes de fora da casa acesas para dizer aos
forasteiros que tem gente ali e, assim, nos protegemos do perigo. E, para a
gente poder se desarmar e experimentar novas sensações, é preciso primeiro
resolver o problema da luz acesa que tanto gasta energia.
O que me faz sentir
em perigo? Em que situações meu corpo entra em estado de alerta? Como esse
estado de alerta se apresenta?, podemos nos perguntar tentando detalhar
minuciosamente nossa coreografia do alerta. Um caminho para essa resposta:
percebendo o nosso corpo dessa maneira fenomenológica (isso é só uma sugestão,
não estou dizendo que seja fácil), como observamos cada detalhe de um pássaro
exótico no canal de documentários. Podemos demarcar nosso território, conhecer
nossas reações, mapear os ambientes que nos fazem bem e aqueles onde nos
sentimos ameaçados.
Nos situando no
mapa da nossa vida, discernimos os momentos de nos defender e aqueles onde
podemos esperar e ver o que acontece, deixando o corpo e as emoções nos
surpreenderem. Que nova forma ganha espaço quando apagamos as luzes da defesa?
Essa possibilidade nos traz de volta o frio na barriga e a
lembrança de que quando podemos abrir mão do conhecido o mistério entra em cena.
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